sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O risca céu: o escarcéu musical

    

     Das músicas mais lindas que vivi nunca me atrevi a questionar pontos ou vírgulas. Apenas me deixei flutuar sob a melodia que embalava meu momento, meu dia.
     Mas há também músicas a que não me dou ao trabalho, pois a ventura de elas não me impulsiona a pôr para trabalhar as cordas de minha massa, e não havendo a tal mágica elétrica em meu corpo, apenas vou. Vou seguindo o povão, agitando as poeiras do calçadão.
     É simplório, eu bem disso o sei. Porém esse tipo de música – se é que assim podemos chamá-las – exerce tal influência, que chega a ser impossível desligar-se do refrão. É como se a razão morresse e um tipo de emoção burilada invadisse o corpo e a alma.
     Tais toques, tais palavras, tais... – de que estávamos falando mesmo? De que é que as tais músicas falam mesmo? Eu só sei dizer que não há canção no “batidão”. A exemplo disso tem-se várias “geringonças dançantes”, que não as cito por educação. Só acho curiosa a cultura de nossa nação, deixando-se levar e propagando tal “porcaria” em toda dimensão.
     Não falo de vergonha. Pois vergonha é não viver por arrepender-se antecipadamente ou tardiamente de uma situação. Falo de coisas inexplicáveis, mas muito bem boladas em seu sentido existencial de o ser.
     De quando em quando se acerta um refrão ou umas notas, ou um ritmo, daí a pouco lá se vão às ruas pessoas, de estandarte (cerveja) na mão para dançar, cantar ou farrear junto às emoções libertas e emboladas pela voz do cantor.
    Mas quando a estrela risca o céu: a música se vai. As pessoas, então, órfãs pedem outro pai, ou outro rei, para tocar até o próximo verão. E assim de rei em rei, aparentemente caricaturamos o “orgulho” musical de nossas comunidades.
    O fato é que a música desse feitio não sai da cabeça; fica impregnado como perfume barato de motel – nada contra quem usa! –, ou como aquele chiclete que depois de dilacerado pela fúria dental, gruda; com uma cola curiosa: que se estica até não poder mais.
    Assim são as músicas meteóricas. Fazem sucesso – aparecem no céu –, ficam por um tempo curto – se estala no meio, centro do céu – e por fim se arrastam até conseguirem emplacar outo hit de sucesso – decliva, então, a estrela no céu em direção ao estatelamento embasbacado e pachorrento.
    Talvez essas músicas um dia sejam verdadeiramente reconhecidos como arte. Mas por enquanto é o nó apertado da população para com as gravatas de seus colarinhos.

2 comentários:

  1. Bravo! Bravíssimo!
    Falou e disse! Excelente!
    Parabéns!
    Sem palavras, você disse tudo.
    Abç

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